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Quinta-Feira, 23 de Janeiro de 2020, 07h:45
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Tarcísio Meira fala sobre retorno ao teatro: "Sendo realista, depois desta peça, não vou fazer outra"

Por: Revista Quem

Rafael Cusato/Quem

Tarcísio Meira

 

Tarcísio Meira chega ao Teatro Faap na cadeira de rodas e cumprimenta com uma voz calma e um largo sorriso os técnicos que preparam o local para o espetáculo O Camareiro, no qual ele interpreta um ator que enfrenta o dilema de continuar trabalhando enquanto trava uma briga interna entre o cansaço da velhice e a paixão pela atuação. Aos 84 anos de idade, Tarcísio se levanta da cadeira e caminha até o camarim comigo, onde me conta que se identifica com algumas características do personagem, que lhe rendeu o prêmio Shell de Melhor Ator.

 

"Acho que qualquer ator pode se identificar com esse personagem. Nosso trabalho é muito difícil e cansativo, mas também muito prazeroso e enriquecedor. Se é uma coisa que o ator não pensa é em se aposentar e parar de atuar. Claro que ninguém quer morrer no palco. Esses dias vi um sertanejo que morreu no palco (Juliano Cezar teve um infarto fulminante durante um show). Achei tão triste, espero que não aconteça comigo e nenhum de nós. Mas não penso em me aposentar, parar. Agora, sendo realista, depois desta peça, não vou fazer outra. Estou indo para os 85 anos, estou velhinho. Não acredito que surja um outro personagem que eu possa fazer", avalia ele, que segue em cartaz até o dia 2 de fevereiro.

 

Tarcísio fala com naturalidade e de forma direta sobre a idade. Ele conta que se cuida para ser mais saudável, mas que não perde tempo com medo da morte. "Não tem nada de melhor na velhice, tudo é pior. Envelhecer é uma coisa muito chata. Tem limitações física e intelectuais cada vez maiores. A memória não é mais a mesma. A morte está aí. Qualquer hora ela chega. Que chegue bem. Não penso muito nisso. Me preocupo em ficar bem, cuidar da minha saúde, não saio por aí fazendo loucuras. Faço as minhas consultas, vejo as coisas que estão erradas comigo e procuro corrigi-las, faço academia, minha ginastiquinha... Não faço tanto quanto deveria, mas faço."

 

Com a carreira marcada por grandes sucessos na TV como o João, de Irmãos Coragem, Renato de Roda de Fogo e Dom Jerônimo, de A Muralha, ele garante que lida bem com a rotina não tão intensa como a de antes. Sua última novela foi Orgulho e Paixão (2018), em que fez uma participação encurtada por problemas de saúde.

 

"Não sinto falta de estar sempre ocupado. Sinto que já fiz bastante coisa, muitas boas e outras nem tanto... Tudo foi acontecendo quase como um turbilhão na minha vida. Nem parava muito para pensar, não dava tempo. Tive pouco tempo para mim na minha vida. Não sei como é hoje em dia fazer novela, tenho impressão que é mais fácil, mais dividido. Antes era concentrada em muitos poucos atores. Acho que ninguém decorou tanto texto quanto eu."

 

Quando não está atuando, Tarcísio gosta de cuidar da fazenda no Pará. "Além de ator, também sou fazendeiro, o que me rende outras preocupações e bem diferentes. São preocupações de pé no chão, graças a Deus. Eu vejo tudo. Tenho gado, agricultura... Tudo tem hora certa e isso é importante porque me traz de volta à realidade das coisas. Não que o que eu faça no teatro e na TV não sejam palpáveis, mas não são tão palpáveis quantos as coisas em que eu procuro abrigo, que me trazem para a realidade", explica.

 

O tempo livre maior também ajudou o ator a intensificar a relação de mais de meio século com sua mulher, Glória Menezes. Pergunto se ainda dizem um para o outro "eu te amo" e se andam de mãos dadas. Ele garante que não só continuam fazendo esses gestos como estão cada vez mais apaixonados.

 

"Não só continuam como se intensificaram muito. Nós dispomos de mais tempo para nós mesmos. Procuro o tempo todo a minha mulher e ela me procura o tempo todo também. Eu encontro muito de mim na minha mulher como ela deve encontrar muito dela em mim. Nós somos indissolúveis. A pessoa mais importante da minha vida é a minha mulher", se declara.

 

Ele acha engraçado quando lhe perguntam qual o segredo para um casamento tão duradouro. Brinca que até cogitou se separar de mentirinha de Glória para satisfazer o que não acreditam no "felizes para sempre".

 

"Não tem muita fórmula. É muito amor. Tivemos a sorte de termos nos encontrado. Acho que se existe uma crise tão forte que justifique a separação, tem que se se separar mesmo. A gente passa por crises, mas há coisas melhores e maiores. Eu nunca fiz esforço para continuar casado com a minha mulher e nem ela. Houve uma época que brinquei que ia me separar só para satisfazer as pessoas. Daí pensava: 'Depois eu volto' (risos)."

 

Pai apenas de Tarcísio Filho, que não teve filhos, ele sorri mais largo quando fala dos bisnetos de Glória, frutos de um relacionamento anterior da atriz, que ainda é mãe de João Paulo e Maria Amélia. "Sou uma pessoa muito voltada para a família. Lamento que não tenha mais crianças em casa. Adoro crianças. Meu filho não teve filhos, infelizmente. Meu bisnetos são os da minha mulher. Tem duas crianças que são muito predispostas à arte. Tem um menino e uma menina. Ele inventa, cria... Ela é uma artista que se joga, dança e canta. É engraçado!", conta.

 

Na internet, Tarcísio gosta de navegar para se atualizar sobre a notícias. Ele não tem redes sociais e vê com um pé atrás os colegas que também se tornaram influenciadores.

"Eu gosto da internet e procuro estar por dentro das coisas, mas não participo de nenhuma rede social. Acho que as pessoas talvez frequentem as redes sociais por um sentimento de solidão, que eu não tenho, felizmente. Também não quero me expor a nada desagradável a essa altura da minha vida. Há pessoas muito carinhosas, mas também algumas que não são tão agradáveis", avalia.

 

"Não gosto muito da ideia de um ator influenciador. Ele tem que influenciar com o personagem, mas não como ator. Não acho que seja bom. Meu trabalho é ser ator, encontrar bons personagens e fazer esse personagem de forma tão convincente que faça o público ser convencido. Se eu compreendo bem o personagem, vou mostrá-lo bem."

 

Ele prefere também não se posicionar publicamente em relação à política. "As pessoas não sabem bem o que eu penso porque eu não falo muito a respeito. Nunca fiz propaganda de ninguém, desse partido ou daquele... Eu acho que eu não devo porque, facilmente, posso errar. Errei algumas vezes nos meus julgamentos e lamento profundamente, mas esse erro foi meu e ficou para mim", explica.

 

Mesmo assim, ele reage quando o colega de elenco Cassio Scapin o encontra no corredor dos camarins e se mostra indignado com o discurso com frases idênticas da Propaganda Nazista de Roberto Alvim, então secretário da Cultura, para comunicar o Prêmio Nacional das Artes. "Que absurdo", solta Tarcísio, que ainda comentou o convite feito pelo presidente Jair Bolsonaro para que sua colega Regina Duarte assumisse o cargo após a repercusão negativa do discurso e a exoneração de Alvim. "Se ela aceitar, espero que faça um bom trabalho."

 

"Acho que liberdade é essencial. O Cassio, inclusive, está lendo um texto que foi feito pela classe teatral manifestando a nossa indignação por essa espécie de censura em não patrocinar determinados espetáculos. Procurar espetáculos para patrocinar é um tipo de censura, isso não pode acontecer. Teatro tem que ter liberdade de ideia, de pensamentos. Todo artista tem que ter. Qualquer cerceamento à liberdade é inadequado e inaceitável", defende.

 

Me despeço de Tarcísio e segundos depois sou chamada para voltar para o camarim porque ele quer me contar mais uma coisa. "Ah! Me esqueci de explicar o motivo de estar na cadeira de rodas", começa ele, me explicando que rompeu os ligamentos do joelho em três ocasiões.

 

"Pode acontecer comigo o que aconteceu com o Ronaldinho (o jogador Ronaldo Nazário rompeu o tendão e os ligamentos do joelho em 2000). Tenho ligamentos quebrados, dói. Deveria ter feito (cirurgia) a primeira vez que quebrei que foi quando terminei uma novela do Manoel Carlos, há uns 20 anos. No dia seguinte, saí de férias e quebrei o joelho. Achei que poderia passar sem a prótese, na ocasião eu passei, mas agora está difícil", conta ele antes de se despedir novamente de mim e se preparar para entrar no palco para mais uma noite de espetáculo.

 

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Edição 215 Fevereiro de 2020

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