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Quinta-Feira, 19 de Setembro de 2019, 14h:20
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Big Brother Bologna: técnico que trata câncer assiste a treinos ao vivo e comanda pelo celular

Por: Globo esporte

reprodução

bogolona

 

Faz parte da rotina no centro de treinamento do Bologna a atividade ser paralisada por um dos quatro assistentes que, de umas semanas para cá, assumiram as rédeas do time vice-líder do Campeonato Italiano. "Ele pediu para fazer assim", alertam. Os jogadores se posicionam, e o treino recomeça... só para ser novamente interrompido logo em seguida: "O técnico não quer dessa maneira". E a dinâmica se repete. Sinisa Mihajlovic é durão, daqueles treinadores bastante rígidos. E preserva seu perfil inflexível mesmo deitado numa cama de hospital, onde está internado para tratar da leucemia.

 

Ex-jogador de clubes como Roma e Inter de Milão, Mihajlovic é técnico há 13 anos, mas está afastado do dia a dia do Bologna desde julho por motivos de saúde - o anúncio emocionado foi dado numa coletiva durante a pré-temporada. O que, por incrível que pareça, não o impediu de acompanhar e participar de todos os treinos da equipe desde então. Com um computador e um telefone celular, o sérvio vem cumprindo seu papel de treinador sem precisar pôr os pés no clube.

 

O Bologna estabeleceu um esquema para que as atividades sejam transmitidas em tempo real para o treinador no hospital. São dezenas de câmeras espalhadas pelo centro de treinamento que dão a Mihajlovic uma visão privilegiada dos movimentos de seus comandados. "O cara vê tudo", contou ao GloboEsporte.com o volante Danilo, ex-Palmeiras, que chegou ao clube italiano em agosto do ano passado.

 

"Sinceramente, parece um Big Brother (risos)", completou.

 

Homens de confiança de Mihajlovic, Emilio de Leo e Miroslav Tanjga comandam interinamente - são eles quem falam nas coletivas e passam as instruções nas partidas, por exemplo. Mas nos treinos, estão sempre com fones de ouvido. Quando não eles, são os auxiliares Diego Gabriel Raimondi e Renato Baldi. Afinal, alguém precisa ouvir as instruções que vêm direto do hospital e repassá-las ao grupo.

 

- Como ele consegue assistir aos treinos ao vivo do hospital, ele vai falando com os membros da comissão técnica. Dá indicações, fala o que não está legal. O pessoal diz: "O treinador mandou falar isso para você" - explica Angelo da Costa, o outro brasileiro do elenco.

 

- E aí, duas ou três vezes por semana, ele chama o grupo depois do treino. Às vezes os mais velhos, às vezes só a defesa. E comenta o que quer - prossegue o goleiro de 35 anos, há cinco no Bologna.

 

O caso é tratado com discrição pelo clube. Pedido do próprio treinador. Por isso, Mihajlovic não deu entrevistas desde o início do tratamento. E, nas redes sociais do Bologna, não há sequer um registro das videoconferências. O GloboEsporte.com solicitou à assessoria fotos ou vídeos, mas teve o pedido negado.

 

Por sua vez, tocados com a condição de seu treinador, os atletas seguem à risca o que lhes é pedido. "Agora também temos um comprometimento com ele", acredita Angelo. Como se a leucemia, tipo de câncer maligno que ataca os glóbulos brancos no sangue, fosse responsável por fortalecer o laço de Mihajlovic com o clube e seus jogadores. Óbvio, também com a torcida, que dia desses estendeu no Estádio Renato Dall'Ara faixas com os dizeres "combattiamo ogni battaglia per Sinisa" em italiano: "Vamos lutar essa batalha por Sinisa".

 

De forma até inevitável, o clima de comoção tomou Bologna, cidade de quase 400 mil habitantes. Mas o treinador sérvio, alheio a tudo isso, não só faz questão de dar sequência ao trabalho como o está fazendo muito bem. O time é o vice-líder do Italiano, com um empate e duas vitórias - dentre as quais, um 4 a 3 alucinante sobre o Brescia no último domingo cuja virada depois de estar perdendo por 3 a 1 só foi possível graças à cobrança por Skype do técnico no intervalo.

 

- Ele deu uma bronca muito grande na gente - recorda Angelo. - Mas sempre no modo positivo, para tirar o nosso melhor. E conseguimos virar o jogo.

 

Depois da partida, em vez de irem para suas casas, os jogadores foram até o hospital onde Mihajlovic está internado e fizeram uma surpresa para o treinador no meio da noite. Embaixo da janela do quarto dele, cantaram e trocaram meia dúzia de palavras. "É um hospital né, o médico pediu para não fazer muito barulho", revela o goleiro.

 

 

- Eu não esperava - disse, surpreso, o treinador da janela.

 

- Como estão? Tudo bem? - perguntou, para logo em seguida ser o Sinisa a que todos estão habituados:

 

- Na quarta nós conversaremos, porque não fizemos uma grande partida.

 

A promessa de Mihajlovic

Sinisa Mihajlovic, que esta com 50 anos, chegou no Bologna em janeiro para escapar do rebaixamento e terminou o último campeonato em décimo lugar. Ganhou a confiança do elenco, portanto. Mas quando a equipe se apresentou para o início da pré-temporada, ele não deu as caras, como conta Angelo, que trabalhou com o treinador também na Sampdoria.

 

- Nos contaram que ele estava com gripe, achávamos que era um simples resfriado. Só um pouco antes de fazer a coletiva de imprensa (em que anunciou o diagnóstico da doença) foi que ele reuniu todos os jogadores por Skype e nos contou, disse que tinha esse problema e que ia enfrentá-lo. Foi um choque.

 

- Ele passou a mensagem para a gente antes de passar para a imprensa - conta Danilo. - Disse: "Quero falar antes com vocês e com a minha família". Então a gente se sentiu parte da família. Ele falou com a família e, depois, com a gente. Os mais experientes captaram isso na hora.

 

Naquele momento, cerca de 40 dias antes do início da temporada, Mihajlovic fez uma promessa: a de que estaria junto com o time na estreia do Campeonato Italiano, contra o Hellas Verona. "Mas ninguém imaginou que ele fosse mesmo", disse o volante.

 

Chegado o dia da primeira rodada, a delegação reuniu-se no hotel em que estava concentrada em Verona, poucas horas antes da partida, e ele apareceu de surpresa. Careca, muito magro, apertou a mão de seus jogadores pela primeira vez desde que se afastou por causa do tratamento e fez muita gente chorar.

 

Danilo: "Ele estava muito mal, mal estava conseguindo ficar de pé. A imagem foi chocante. Além de tudo ele estava muito magro, com uma cor estranha. Você vê que ele estava fazendo um esforço tremendo para estar ali. Todo mundo chorou, você imagina 40 marmanjos chorando (risos)".

 

Como havia prometido, Mihajlovic esteve na beira do campo no empate em 1 a 1 fora de casa. O médico deu o aval, e o sérvio pôde comandar a equipe também na segunda rodada, na vitória por 1 a 0 sobre o SPAL. Partida que marcou seu reencontro com a torcida em casa. Ainda debilitado, ele teve o nome gritado o tempo todo pela arquibancada e levou os braços ao ar, acenando, em forma de agradecimento.

 

Na semana passada, no entanto, o treinador voltou ao hospital para a segunda etapa do tratamento, motivo pelo qual não esteve com a delegação na vitória de virada sobre o Brescia.

 

- Ele conseguiu criar isso - afirma o experiente Danilo, de 35 anos, referindo-se ao elo entre treinador e clube.

 

- Eu nunca vivi algo parecido. Aqui nós temos muitas nacionalidades, então é difícil criar esse laço. Joga um holandês, aí agora chegou um japonês, tem um moleque da Dinamarca. E ele conseguiu fazer isso, tanto é que até quem chegou esse já está junto. Não desgarra - completou o brasileiro.

 

De volta ao hospital, a expectativa é de que Mihajlovic permaneça internado por mais três semanas até que seja realizado o transplante de medula óssea. Não é possível dizer, portanto, quando ele vai poder retomar em definitivo a rotina no Bologna.

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Edição 207 Dezembro de 2019

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