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Quarta-Feira, 17 de Abril de 2019, 13h:55
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Ex-presidente do Peru se suicida após receber ordem de prisão no caso Odebrecht

Por: O Globo

 

Ex-presidente do Peru , Alan García morreu cerca de três horas depois de ter atirado contra a própria cabeça diante de uma ordem de prisão preventiva por dez dias emitida pela Justiça. García, de 69 anos, havia sido levado para o hospital Casimiro Ulloa. Ele era um dos dos quatro ex-chefes de Estado do Peru investigados sob a acusação de terem recebido suborno da construtora brasileira Odebrecht, mas negava a acusação de corrupção.

 

— Nesta manhã ocorreu este lamentável acidente: o presidente tomou a decisão de atirar em si mesmo — disse a jornalistas o advogado de García, Erasmo Reyna, na porta do Hospital de Emergências Casimiro Ulloa, em Lima.

 

O secretário pessoal de García, Ricardo Pinedo, confirmou que o ex-presidente entrou em seu quarto depois de ser informado que um promotor batia à porta de sua casa levando a ordem de prisão. Segundo Reyna, ele foi submetido a uma operação, mas não resistiu.

 

Orador habilidoso que liderou por décadas um partido tradicional do Peru, o Apra (Aliança Popular Revolucionária Americana), García governou o país como um nacionalista de 1985 a 1990 antes de se reinventar como um defensor do livre mercado e ganhar um novo mandato de cinco anos em 2006. No ano passado, ele pediu asilo político ao Uruguai depois de uma ordem judicial que o proibiu de sair do Peru, para evitar que fugisse ou interferisse nas investigações do caso Odebrecht. Montevidéu não aderiu à tese de perseguição política e rejeitou a solicitação.

 

O caso contra ele faz parte da chamada Lava-Jato peruana e avançou após a  delação premiada  do advogado brasileiro José Américo Spinola, que afirmou no Brasil ter pago US$ 100 mil a García a pedido da Odebrecht . García afirma que recebeu o dinheiro como pagamento de uma palestra feita na Fiesp, em São Paulo, sem nenhuma relação com corrupção.

 

— Se estou impedido de sair do país já é uma forma de prisão. Já não posso ir a nenhuma conferência, não posso assistir a nenhuma reunião. Estou, de alguma maneira, atado — disse recentemente García.

 

Minutos depois da morte, o presidente do Peru, Martín Vizcarra, se disse "consternado" em mensagem  em uma rede social: "Envio minhas condolências a sua famíilia e seus entes queridos."

 

O caso Odebrecht no Peru

Além de García, a investigação sobre subornos da Odebrecht no Peru envolve também os ex-presidentes Alejandro Toledo (2001-2006), Ollanta Humala (2011-2016) e Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018). Todos estão sob investigação do Ministério Público peruano.

 

Kuczynski, de 80 anos, foi preso preventivamente por dez dias no início deste mês e nesta quarta-feira foi hospitalizado  após sofrer uma crise de hipertensão arterial.  Toledo, que supostamente recebeu US$ 20 milhões da empreiteira pela construção de uma rodovia, vive nos Estados Unidos.  E Humala, que foi preso preventivamente no ano passado, atualmente aguarda julgamento em liberdade.

 

O escândalo também atingiu as ex-candidatas Lourdes Flores e Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000), em prisão preventiva desde 31 de outubro.

 

A ordem judicial de detenção desta quarta-feira também afeta outras oito pessoas: o ex-ministro de Transportes Enrique Cornejo; Luis Nava e seu filho José Antonio Nava; o empresário Miguel Atala, seu filho Samir Atala; Oswaldo Plasencia Contreras, ex-diretor executivo da Autoridade Autônoma do Trem Elétrico; Jorge Menacho, ex-secretário do Ministério de Transportes e Comunicações; e Raúl Antonio Torres, ex-chefe de Vias Nacionais do Ministrério de Transportes. Luis Nava, que foi ministro de García, teria recebido US$ 4 milhões da Odebrecht que, segundo os promotores peruanos, eram destinados ao ex-presidente.

 

Em fevereiro, a Odebrecht assinou um acordo de cooperação com a Procuradoria peruana em São Paulo para ampliar as investigações sobre pagamentos ilícitos no país andino.

 

Ficou então definido que a empresa teria que pagar cerca de US$ 182 milhões como compensação civil aos peruanos, com base em quatro licitações que venceu mediante o pagamento de subornos a autoridades locais. A empreiteira já admitira em 2016 que havia pagado propinas na casa dos US$ 29 milhões entre 2005 e 2014 no país.

 

O Peru é o oitavo país com o qual a Odebrecht firmou um acordo de colaboração. Negociações semelhantes ocorreram com o Brasil, os Estados Unidos, a Suíça, a República Dominicana, o Panamá, o Equador e a Guatemala.

 

Em dezembro, o presidente Martín Vizcarra,  rejeitou a possibilidade da continuação das operações da Odebrecht   no país, sob a alegação de que as práticas corruptas da empresa provocaram sérios estragos. Vizcarra assumiu a Presidência em 2018 depois da renúncia de Pedro Paulo Kuczynski, que sofria uma ameaça de impeachment. Apesar das críticas, Vizcarra afirmou que respeita o pacto dos promotores com a Odebrecht.

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Edição 179 Maio de 2019

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