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Terça-Feira, 03 de Dezembro de 2019, 09h:38
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GONÇALO DE BARROS
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Ser e justiça

Por: GONÇALO DE BARROS

 

Uma aula em vídeo muito interessante é a do professor Clóvis de Barros Filho, sob o título – ‘Ética, conceitos de justiça’. 

 

Em sua reflexão, trabalha o citado filósofo com a concepção de justiça, citando, com mais profundidade e propriedade, as passagens que a seguir compartilho, recheadas, claro, com a nossa particular ironia. 

 

Ainda que pressinta o quão perigoso seja a ironia, pois, com ela se sustenta algo para afirmar o seu contrário, e nem todo leitor entende o significado, podendo, nas palavras de Sérgio Rodrigues da Veja, tomar o texto pelo valor de face, deixando de captar seu sarcasmo, arrisco.

 

Na tragédia grega de Sófocles – Antígona -, escrita por volta de 442 a.C., trabalha-se com a perspectiva de dois tipos de justiça: a da lei, portanto, do Estado, e a de Antígona, sobrinha de Creonte, rei de Tebas, a da justiça divina. Diante da altercação entre Etéocles e Polinice, irmãos de Antígona, em que ambos vieram a falecer na disputa pelo trono de Tebas, Creonte mandou que o corpo do primeiro fosse enterrado com todo o cerimonial previsto aos mortos e deuses. Polinice, ao contrário, não receberia sepultura e seu corpo deveria ficar exposto aos cães e aves de rapina, servindo como lição a todos que intentassem tomar o poder. Antígona, crendo injusta a determinação do soberano, mandou dar sepultura ao irmão Polinice, em atenção à lei divina, e por isso foi morta por ter sido insubmissa às leis humanas. 

 

Na obra ‘A República’, de Platão, em seu livro II, Glauco escreve sobre a justiça. Vale ressaltar que Glauco era considerado irmão de Platão. Conta Glauco a lenda do Anel de Gyges, que se tornou um marco do pensamento filosófico. Nesta, Gyges, um pastor, ao levar as ovelhas para o campo, olhando uma fenda aberta no chão, deparou-se com um cadáver que não tinha mais nada, a não ser um anel. Pegou-o. Ao se reunir com os demais pastores em uma espécie de assembleia anual para prestar contas ao rei, deu por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro, em direção à parte interna da mão, e, ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado. Tomado pela percepção do poder imenso que tinha na mão, atacou o soberano e tomou-lhe o poder, em tudo ajudado pela rainha por ele seduzida. 

 

Qual a lógica disso? Glauco se torna o portavoz do fato de que somos profundamente injustos e que somente não agimos em atenção aos mais terríveis impulsos por medo e coerção na alteridade. 

 

Aqui temos justiça na perpectiva do binômio: coerção e medo. Isso revolucionou o pensamento filosófico que até então se apoiava em Platão na sua tese de que justiça é a somatória de todas as virtudes. 

 

Percerbe-se que, a partir do século XV, Glauco nos aproxima muito mais da concepção de justiça, apesar de Platão. 

 

Mas qual a reflexão a ser feita disso tudo? As pessoas aparentemente justas o são por medo do Estado e/ou de represária social, ou, em quadra oposta, por acreditar na boa alma humana e sua formatação num universo de virtudes? 

 

Estamos com o uso da autoridade por Creonte e da metáfora do Anel de Gyges, ou, em lado mais sublime, diria até mais confortante à hipocrisia social, do exemplo de Antígona e da concepção de justiça de Platão? 

 

Ao que parece, Glauco entende justiça como mera convenção social, com perspectiva coercitiva, despertando medo. 

 

Vejamos como o medo pode assombrar uma assembleia de honoráveis homens, pelo menos deveriam ter honorabilidade: duas forças se digladiam – uma, puxada pela vaidade de seu dono, tem vontade de dominar os outros e ser a poderosa do circo, avançando sobre os pares numa espécie de rolo compressor. Outra, articulada, mas não menos emblemática que a primeira, esbanja simpatia, liderança, agrada a patuleia, e, em seu discurso sofista, promete o que nem Maria Antonieta ousaria pensar.  Qual o resultado possível? 

 

Após brincarem com os seus soldadinhos, de egos saciados e conjuntamente brindados num churrascão, formalizam nova paz até a próxima aventura. E os bons? Ah, esses, se acaso existirem, quererão mais diversão. O medo lhes traz benefícios. Afinal, a festa não tá boa? 

 

É por aí...

 

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO é formado em Filosofia e Direito (UFMT) e escreve aos domingos em A Gazeta (email: antunesdebarros@hotmail.com).

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Edição 208 Dezembro de 2019

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