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Segunda-Feira, 27 de Maio de 2019, 15h:21
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LUIZ HENRIQUE
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O muro invisível

 

É mais fácil enfrentar os muros visíveis que os invisíveis. Os visíveis podem ser contornados, ultrapassados ou até derrubados. Com relação aos invisíveis, isso não é possível, pois sua existência é desconhecida até o momento em que com eles nos chocamos.

 

No Brasil, há muitos muros visíveis que obstruem o exercício da cidadania e o respeito aos direitos humanos, sociais e coletivos. Alguns até recentemente eram camuflados, mas aos poucos foram sendo descobertos e denunciados. A existência de tais muros provoca exclusão, violência e infelicidade. Por isso, devem ser incessantemente combatidos. São os muros do racismo, do machismo, da homofobia e de outras espécies de intolerância e discriminação.

 

Mas existem também os muros invisíveis, somente percebidos por aqueles que lhes sofrem as consequências. É sobre um deles que trataremos hoje no Dia Nacional da Adoção.

 

É impressionante constatar como são arraigados certos preconceitos culturais relativos à adoção e que compõem um grande e sólido muro invisível.

 

Como pai adotivo, esbarro o tempo todo contra esse muro, razão pela qual já o conheço um pouco e sinto-me no dever de apresentá-lo aos que ainda o ignoram.

 

Hoje no Brasil o processo de adoção é conduzido com extrema seriedade e respeito aos direitos e à individualidade das crianças e adolescentes. Conheci no Poder Judiciário e no Ministério Público autoridades e servidores não apenas qualificados profissionalmente como profundamente comprometidos para a condução justa, célere e humana dos processos de adoção.

 

No processo de habilitação para a adoção, passamos por várias etapas de preparação e fomos avaliados por múltiplos profissionais até sermos considerados aptos a ser adotantes. Neste percurso, conhecemos o voluntariado de organizações de apoio à adoção, como a Amapara em Mato Grosso e diversas outras pelo país. Que trabalho dedicado e admirável desenvolvem! A limitação de recursos é fartamente vencida pelo entusiasmo, disposição para o trabalho e amor à causa.

 

Mas o muro invisível é real e é sólido. E ele não repousa nas normas legais ou no poder público, mas na intimidade das relações sociais: nas famílias, nos círculos de amizade e convivência profissional, esportiva, religiosa etc.

 

Se fosse um romancista, poderia dividir a história desse muro em dois volumes, cada um com múltiplos episódios.

 

O primeiro trataria das barreiras e do preconceito antes de realizada a adoção; o segundo, depois que a criança adotada é recebida na família e começa a conviver no seu ambiente social.

 

Na etapa pré-adoção, a conversa mais frequente é: “Adoção? Vocês têm certeza? Pensem bem, para depois não se arrepender”. A essa introdução, sempre segue um relato tortuoso de final infeliz acerca de uma adoção ocorrida em algum lugar e que, segundo o interlocutor, “não deu certo”.

 

Depois da adoção, os tijolos do muro são colocados pelos que escrutinam o comportamento da criança adotada e, diante da primeira birra, da disputa pelo brinquedo, de um tropeço escolar ou de uma doença, se comprazem com expressões do tipo: “Eu já sabia! Eu avisei! De onde veio, não podia sair coisa boa etc.”

 

Em todos os casos, as intervenções traduzem um sentimento preconceituoso contra a adoção, como se os filhos “de sangue” fossem sempre virtuosos e os adotados trouxessem um insanável defeito de origem. O que pode significar “dar certo” na mente dessas pessoas? Será que existe no planeta algum filho biológico que nunca tenha feito birra, disputado um brinquedo ou causado preocupação aos pais?

 

O mais triste é que o preconceito é transmitido por adultos às crianças que convivem com os adotados e que muitas vezes expressam palavras depreciativas nas salas de aula e nos parquinhos infantis. Quando a adoção é inter-racial, como no nosso caso, essas pessoas se incomodam ainda mais, como que ofendidas por verem crianças negras felizes e amadas por famílias brancas.

 

O Dia Nacional da Adoção é uma boa ocasião para começarmos a derrubar esse muro invisível e dizer que adotar é amar e que o amor é invencível.

 

 

LUIZ HENRIQUE LIMA é conselheiro sustituto do Tribunal de Contas do Estado

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Edição 204 Novembro de 2019

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