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Quinta-Feira, 24 de Maio de 2018, 17h:15
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Pão, circo e impostos

Pão, circo e impostos no lombo do povo!

Por: MARCELO FERRAZ

Chega a ser cômico, caso não fosse tragicamente desolador para os cidadãos de Mato Grosso, as semelhanças ardilosas das políticas públicas atuais com aquelas do tempo em que os líderes romanos lidavam com a população em geral. Isso mesmo que os senhores estão pensando... a já tão manjada e até burlesca, “Política do Pão e Circo”.

 

Porém, para alguns tidos como eruditos em latim, essa manobra dos governos imperiais, a fim de conter a revolta do povo, também era chamada de panem et circenses. Imagina um evento do “Vem para Arena” com esse nome exótico, panem et circenses, promovido novamente pela Associação Casa de Guimarães; seria a publicidade mais verdadeira que o “Governo da Transformação” poderia fazer este ano.

 

Ironia e sarcasmo à parte, segundo os historiadores, esta frase tem origem na Sátira X do humorista e poeta romano Juvenal (vivo por volta do ano 100 d.C.) e no seu contexto original, criticava a falta de informação do povo romano, que não tinha qualquer interesse em assuntos políticos, e só se preocupava com comida e divertimento momentâneo.

 

Mas, no outro dia, a realidade e tristeza batiam à porta deles até chegar o próximo evento do Estado Romano; para, novamente, esse mesmo povo cair no encanto da sereia e esquecer todos os problemas estruturais do governo. Era uma mistura constante de farra, miséria, sofrimento e ignorância ao mesmo tempo.

 

Desta maneira, para manter a massa despolitizada fiel à ordem estabelecida e conquistar o seu apoio, as autoridades da época entorpeciam o povo com a construção de enormes arenas, nas quais realizavam-se sangrentos espetáculos envolvendo gladiadores, animais ferozes, corridas de bigas, acrobacias, bandas, espetáculos com palhaços, artistas de teatro, corridas de cavalo e por aí vai.

 

Depois de 20 séculos, a estratégia de manipular a massa continua a mesma. Capitalizando bilhões da área pública para a iniciativa privada, os políticos brasileiros atuais espalham gigantescas Arenas pelo país a fora com promessas de se manterem jogos e eventos monumentais nesses espaços públicos.

 

Aqui em Mato Grosso não foi diferente, primeiro veio o desgoverno do PMDB e firmou um contrato, no qual o Estado, ou seja, os cidadãos contribuintes acabaram pagando cerca de R$700 milhões por esse gigantesco elefante branco.

 

Porém, se não bastasse esse valor exorbitante, que daria para reformar todas as escolas estaduais de Mato Grosso, atualmente, esse famigerado Estádio tem gerado um prejuízo à sociedade de R$6 milhões por ano.

 

Isso só para manter a estrutura. Assim, em quase quatro anos de mandato, mais 30 milhões, incluindo outras despesas no pacote, foram pagos para manter o "baita" elefante funcionando. E o VLT então? Esse esqueleto de ferragens, que deixou obras inacabadas pelas as Avenidas de Cuiabá e Região e quebrou centenas de empresários, deixa para um artigo específico. 

 

Enquanto os amiguinhos dos reis durante os quatros últimos mandatos abocanhavam a vultosa quantia de cerca de 3,6 bilhões por ano, com as renúncias fiscais, fora a desoneração da Lei Kandir – pois nem mesmo o maior investigador da história, Sherlock Holmes, poderia descobrir alguma coisa sobre esses inacessíveis incentivos fiscais – para entreter o povo, esse mesmo grupo político, entre os anos de 2011 e 2018, repassou à Casa de Guimarães mais de R$ 35 milhões por meio de contratos com o Governo do Estado e com a Assembleia Legislativa também.

 

Informação essa, conforme consta nos registros de pagamentos do Sistema Integrado de Planejamento, Contabilidade e Finanças (Fiplan).

 

Empresa essa que hoje é o principal alvo da operação “Pão e Circo”, desencadeada pelo MPE, que investiga indícios de constituição de organização criminosa, peculato, falsidade ideológica, fraude em licitações e lavagem de capitais.

 

Mas a lógica do entretenimento em massa não parou no atual governo, o governador “legalista” do PSDB, à lá Maquiavel, também se valeu dessa prática de tentar oferecer grandes eventos para conter os ânimos dos cidadãos.

 

De acordo com as investigações do Gaeco, na atual gestão, essa empresa recebeu mais de R$ 13 milhões relacionados a 42 empenhos. Entre os eventos realizados pela entidade no período, estão o Vem para Arena, a Expoagro e o Festival de Inverno de Chapada dos Guimarães.

 

No entanto, segundo as informações preliminares do MPE, o maior volume de recursos pago por uma ação foi em 2014, sob responsabilidade da Secretaria Extraordinária da Copa do Mundo FIFA 2014: R$ 13 milhões, pela realização do Fifa Fan Fest, que reuniu milhares de torcedores no Parque de Exposições de Cuiabá.

 

Entretanto, é preciso ressaltar para o leitor que ninguém é contra a promoção de eventos culturais, sobretudo em um Estado desguarnecido de Políticas Públicas, que possam resgatar a inclusão cultural dos Mato-Grossenses.

 

Contudo, se o governo quisesse mesmo investir em cultura, teria promovido mais eventos literários, enfim, artísticos em geral, ou seja, teria restaurado, organizado e mantido em pleno funcionamento os espaços públicos, onde a população já era acostumada a visitar esses pontos culturais.

 

Apesar de tudo isso, assim como o Império Romano caiu um dia, esse grupo político que, ao meu ver, é o mesmo há duas décadas – que sempre misturou negócios privados com públicos – também poderá ser substituído nas próximas eleições por gestores independentes; que tenham o compromisso constitucional com a moralidade pública. E, acima de tudo, que deixem de querer manipular o povo com políticas ilusórias e tenham o respeito republicano pelos cidadãos deste Estado.

 

Marcelo Ferraz é jornalista e escritor.

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Edição 152 Outubro de 2018

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