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SOMAR FORÇAS

Ao Encontro do Retrocesso

Por: NARA ASSIS

A escola precisa ser um espaço crítico, de respeito às diversidades e verdadeiramente laico.

 

Eu tenho um filho de quase cinco anos. Um menino, a quem eu tenho que ensinar não apenas a escovar os dentes, a comer adequadamente, ou a entender tantos porquês. Minha mais desafiadora missão é contradizer o que a sociedade conservadora ensina a ele sobre o machismo, o preconceito e o racismo.

 

Não é fácil, é um processo de convencimento diário que só se faz com amor e diálogo. Reconheço que o Davi tem facilidade para aprender, o que me ajuda sobremaneira nesse processo.

 

Mas eu fico preocupada com o que virá por aí, com o tipo de sociedade que estamos deixando a estas crianças que gostamos de classificar como o futuro do País. É no mínimo contraditório assim chamar um tempo que se anuncia tão retrógrado e afundado nas águas do conservadorismo.

 

Que tem uma maioria masculina e branca no Legislativo, Executivo e Judiciário decidindo sobre o direito da mulher ao próprio corpo, tratando a orientação sexual do público LGBT como doença, e reduzindo cada vez mais o acesso dos negros a condições dignas de vida.

 

Enquanto outros países avançam em discussões fundamentais para garantir sociedades menos desiguais, o Brasil investe tempo, energia e dinheiro público em propostas completamente opostas.

 

Esta semana, o projeto chamado Escola sem Partido (PL 7180/2014), do deputado federal Erivelton Santana (PSC-BA), está previsto para ser votado na Câmara Federal.

 

O texto altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9.394/96), ao incluir, entre os princípios do ensino: “Respeito às convicções do aluno, de seus pais ou responsáveis, tendo os valores de ordem familiar precedência sobre a educação escolar nos aspectos relacionados à educação moral, sexual e religiosa, vedada a transversalidade ou técnicas subliminares no ensino desses temas”.

 

Se já é tarefa árdua desconstruir algo sutil que, muitas vezes, é considerado como brincadeira normal pela sociedade patriarcal em que vivemos, será ainda pior diante de uma Lei que retira dos professores o direito de estimular o debate sobre as temáticas de gênero e orientação sexual.

 

Os pais são, de fato, responsáveis pela criação dos filhos. Não se trata de transferir a tarefa aos professores. Mas a escola precisa ser um espaço crítico, de respeito às diversidades e verdadeiramente laico.

 

Isso não se faz por meio de censura a conteúdos que instiguem a reflexão em sala de aula. Ninguém precisa mais de tanta polarização, discurso de ódio e alienação. A não ser aquela maioria que se mantém no poder a qualquer custo e se sente ameaçada pela ascensão social das minorias.

 

Enquanto a população se divide, em busca de salvadores da pátria, eles garantem o lugar deles e nos impõem retrocessos.

 

Como consequências, teremos a perpetuação do machismo velado que considera culpada uma mulher que sofre estupro em função da roupa que usa.Teremos mais homens jovens com a masculinidade calcada no desempenho sexual e romantizando o relacionamento abusivo como se fosse excesso de cuidado.

 

O combate ao feminicídio não será efetivo sem a desconstrução deste padrão machista que, inclusive, muitas religiões propagam, estas sim, por meio de mensagens subliminares.

 

A educação como instrumento de transformação está ameaçada. Já vimos episódios recentes de pais questionando o ensino de conteúdos sobre a história e cultura africanas, numa manifestação clara de racismo.

 

É revoltante constatar que as futuras gerações podem ser ainda mais prejudicadas. É preciso pressionar os parlamentares a não aprovarem o PL.

 

Uma dica é a Beta, robô feminista (Facebook: @beta.feminista) que informa os seguidores sobre as pautas que ameaçam os direitos das mulheres. Também é possível, com um clique, fazer parte da pressão política para evitar retrocessos.

 

Somar forças é o caminho, como diz a ciranda das mulheres: “Companheira, me ajude que eu não posso andar só. Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor”.

 

 

Nara Assis 
Jornalista e servidora pública estadual

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