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Sexta-Feira, 10 de Novembro de 2017, 18h:03
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Avenida Coronel Escolástico

Ainda ouço aquela bateria numa explosão de ritmos e criatividade

Por: Wilson Carlos Fuah

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Wilson Carlos Fuah

Todos que vinham para Cuiabá, da região sul do país por rodovia, tinham como porta de entrada a Avenida Coronel Escolástico. Ela começa na Igreja São Judas Tadeu e termina na Igreja do Rosário. 

 

Essa avenida tem um grande monumento da cidade: ali está edificado o pedestal que homenageia as figuras do Bandeirante, do Garimpeiro e do Índio. A primeira casa construída nessa Avenida está ao lado da Igreja São Judas Tadeu, pertencia ao comprador de gados, Sr. Luiz Soares da Silva que morou por muito tempo ali. Mas o grande casarão da família Soares ficava  pelas imediações do entroncamento com a Av. João Gomes Sobrinho com a Travessa das Laranjeiras,  de propriedade do Sr. “Pai Juca” ( José Soares da Silva – filho adotivo do Usineiro Manoel Guimarães, homem rico e poderoso, dono de engenho de escravos ), isso nos idos de 1808, e a família Soares da Silva, tinha propriedades em toda a extensão dessa Avenida, era a Rua dos Soares. 

 

Lembro-me de alguns nomes: Vitoriano, Altamiro, Joaquim, João Batista, Francisco, Dona Celi. 

 

A família Soares da Silva é remanescente do Patriarca Victoriano Soares da Silva, paulista de Sorocaba, que veio para Cuiabá ainda em 1.788 e casou com uma cuiabana da família Paes de Barros (Ana). 

 

Na Avenida havia também os seus tipos tradicionais, alguns até considerados “loucos do bem”, que traziam muitas alegrias às crianças. Lembro-me bem do “Macaco de Bota”, “Pau de Fumo”, “Zé Belinho” e “João Mamoré”... Eram figuras que a criançada chamava pelos apelidos fazendo-os sair correndo atrás de todos (chegavam até a jogarem pedras). Enfim, uma festa para a criançada...Saudades daquele tempo. 

 

Ali tinha o Serviço de Alto-Falante, “ A Voz do Areão”, comandado pelo Dr. Lauro, dentista que a noite, fazia-se de locutor,  lá pelos idos de 1961/1965, em que ele colocava as músicas da “Jovem Guarda” e  os namorados passeavam pela imediações ouvindo Roberto Carlos e todos aqueles conjuntos famosos da época. 

 

Os namorados ofereciam músicas e faziam as declarações apaixonadas (às vezes anônimas), também prestava os serviços de utilidade pública, dando notas de falecimentos, convites para casamentos e batizados... Ainda hoje, ao fechar os olhos ainda ouço aquelas músicas, vejo aquelas figuras a sorrir e passear sempre alegres, sem maldade. 

 

Como era bom viver em Cuiabá daquela época, parecia que todo mundo era feliz com pouca coisa. Em 1968 foi fundado o “Clube Esportivo Novo Mato-Grosso” que tinha como seu Presidente o Odontólogo, Antonio Esmela Curvo que era um apaixonado pelo futebol e sentia feliz por estar promovendo a união dos moradores daquela Avenida e, às suas custas alugou um casarão que se transformou  na Sede do Clube, tinha mesas de jogos de baralho, onde reinava o “Truco Espanhol”, jogos de Ping-Pong, promoviam brincadeiras dançantes, almoços com cabeça de boi assada, pratos tradicionais (Maria Isabel, Farofa de Banana e Sarapatel). 

 

 O Time reunia nessa sede para sair dali, para os treinos e jogos. Esse histórico time disputou o Primeiro Torneio início promovido pela Liga do Departamento Autônomo de Futebol Amador de Cuiabá e foi Campeão. Uma festa enorme que seguiu madrugada adentro, os Troféus ficavam na galeria do Clube na sala principal. Esse time teve grandes treinadores, Jamil, Alair Fernando e Xúm-Xúm, entre os jogadores da época, podemos destacar os goleiros: Gurizinho, Hebert, Lulu; os zagueiros: João Torres, Ariel, Jamil, Bodinho, Osmar, Jair; os meios-campos: Fuá (vejam o nome do autor deste artigo aqui), Zeca, Beninho, Dito Lobi, Toninho, Canhão; atacantes: Edu, Ditão, Nhonhô Preto, Piauí, e Alair Fernando. 

 

Quantas saudades daquele time e daquela sede. Por onde andarão esses jogadores? O Clube tinha até um samba: 

 

“Se uso bebico no alto da cabeça/ dizem que sou malandro/ mas, não sou./ Sou amigo ganhador./ Se uso bebico assim/ é por causa do calor,/ ôô, Ô, ôôôôôôô,/ o Novo Mato-Grosso chegou,/ ô, ô ôôôôôôô o Novo Mato-Grosso chegou./” (“bebico”: quepe, boné de aba só na frente que era considerado, naquela época, como uso exclusivo de malandros) 

 

Havia ali o Bar mais famoso do pedaço: “Bar do Biano”, onde se reunia a boemia da Avenida, com infindáveis bate-papos, com “tira gosto” e a cerveja mais gelada de Cuiabá. Ainda me lembro dos freqüentadores que eram os mesmos, do time e do samba. 

 

Os moradores em sua maioria desfilavam nas Escolas de Sambas: inicialmente eram componentes do “Deixa Cair”, depois a “ Escola de Samba Pedroca”, lá da COHAB – Cidade Verde e, depois, a Mocidade Independente Universitária. 

 

Falou em Samba, lembramos de Alair Fernandes, o entusiasta do samba, dançava como ninguém e tocava todos os instrumentos de ritmo: Agogô, Tamborim, Repenique, Surdo, Chocalho... Era o professor e mestre do Samba. Não podemos esquecer do Mestre Jequinha, com a sua eloquência, seu apito de ouro a comandar a “Bateria da Mocidade Independente Universitária” cuiabana. 

 

Ainda ouço aquela bateria numa explosão de ritmos e criatividade e o apito do Zequinha produzindo som inconfundível. Ele sempre impunha a sua liderança no meio de cem batuqueiros. Saudades da Velha Cuiabá e daquele tempo que não volta mais. 

 

Saudade  da Av. Coronel Escolástico, berço dos Soares.

 

Econ. Wilson Carlos Fuá

 

Wilson Carlos Fuah é economista e especialista em Recursos Humanos e Relações Sociais e Políticas.

Fale com o Autor: fuacba@hotmail.com

 

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Edição 139 julho de 2018

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