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Terça-Feira, 13 de Agosto de 2019, 14h:41
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Ainda nas ruas, tenente "Pitbull Tático" responde a inquéritos por tortura e morte

Por: Mikhail Favalessa - RDNews

Reprodução

 

O tenente da Polícia Militar João Paulo Moura de Arruda é investigado por crimes de tortura, agressão e morte contra diversos cidadãos durante abordagens policiais em Cuiabá. Entre os métodos supostamente utilizados pelo PM estariam a utilização de sacos plásticos na cabeça dos denunciantes para obrigá-los a confessar crimes.

 

As informações constam em portarias de ao menos 11 Inquéritos Policiais Militares (IPM) instaurados em relação ao membro da Força Tática aos quais o site RDNews  teve acesso em primeira mão. As ocorrências, que poderiam constituir violações aos direitos humanos previstos na Constituição Federal caso comprovadas, começam em 2015 e vão até o primeiro semestre de 2019.

 

PM do concurso de 2011, João Paulo foi promovido a segundo tenente em setembro de 2015. Internamente, o policial é conhecido como “Pitbull Tático”, segundo revelou fonte à reportagem.

 

O primeiro registro é de 17 de novembro de 2015, dois meses depois da promoção. O tenente e o soldado Oacy da Silva Taques Neto teriam lesionado um menor de idade e invadido a casa da mãe dele no dia 12 daquele mês. O rapaz foi abordado em um posto de combustíveis no bairro Cidade Verde. Um policial à paisana teria perguntado ao jovem se ele sabia onde encontrar drogas, e ele teria dito não saber de nada.

 

Os dois militares então fizeram abordagem e teriam levado o menor, algemado, até um local próximo ao Campo Estrela, no bairro Santa Amália.

 

"Neste local, o menor C.J.S.B. teria sido lesionado com uma camiseta e sufocado por uma sacola plástica colocada em sua cabeça, atos praticados, em tese, pelos policiais que queriam saber do restante da droga. Posteriormente, levaram o referido menor até a sua residência, onde arrombaram a porta e entraram a procura do restante da droga, não encontrando nada", diz a portaria do IPM.

 

O tenente foi ouvido e afirmou que durante a abordagem foi encontrada uma porção de substância análoga a maconha com o menor e que ele afirmou que 5 kg da droga estariam escondidos em sua casa. O militar disse que o menor tentou fugir e foi imobilizado. Ele confirmou a ida até a casa, mas apenas informou que a droga não foi localizada e que o menor foi encaminhado à Central de Ocorrências.

 

Em 4 de janeiro de 2018, uma abordagem feita pelo tenente e outros três policiais resultou na morte de um suspeito no bairro Jardim Passaredo. No registro, é narrado que os PM viram uma moto trafegando na travessa nº 16 do bairro com duas pessoas que, quando avistaram a viatura teriam tentado fugir subindo no meio-fio. Houve perseguição, os dois bateram a moto, e a busca teria continuado a pé. Os policiais teriam usado munição não letal contra o homem. Nesse momento, o infrator J. U. M. J., teria sacado um revólver de calibre 38 da cintura e dado dois tiros contra os policiais, que revidaram matando o homem de 24 anos.

 

Um registro de 16 de abril narra fatos de 26 de março de 2018. Na ocasião, o tenente João Arruda, o soldado Oacy Taques e outros teriam torturado J. G. P. C. no bairro Cidade Alta. O homem foi preso em flagrante e durante a abordagem, os policiais teriam dados socos, chutes e pontapés na barriga e olhos dele. Um laudo pericial de lesão corporal teria identificado os machucados e que seriam recentes.

 

Já em 26 de abril de 2018, o PM teria agredido M. R. S. N. durante uma abordagem. O homem estaria correndo em alta velocidade em uma moto na avenida P do bairro Parque Atalaia. Durante acompanhamento foram realizados três disparos de munição não letal, não atingindo o suspeito, que foi detido e encaminhado à delegacia com escoriações no queixo e joelho esquerdo. O BO registrado diz que os machucados foram feitos durante a imobilização e colocação das algemas.

 

"Contudo M. R. S. N. afirma ter sofrido socos na cabeça do 2º tenente PM João Paulo de Moura Arruda, o fazendo cair no chão, momento em que o tenente teria desferido dois chutes em seu rosto, que no local estavam vários policiais militares que chegavam a fazer gestos em desacordo com a atitude do tenente, mas que nenhum deles fez nada, nem para agredir, nem para defendê-lo", diz o documento.

 

Sobre fatos ocorridos em 3 de janeiro de 2018, uma portaria de 30 de outubro do ano passado mostra que J. P. M. M. teria sido empurrado ao chão durante uma abordagem e que em seguida o PM teria feito um disparo de calibre 12 na perna do homem. Um irmão da vítima teria tentado filmar a abordagem e também teria sido agredido pelo PM com um chute e um soco.

 

Outro caso mostra o PM supostamente aplicando choques elétricos durante abordagem. Uma sindicância foi aberta em 30 de maio deste ano por fatos ocorridos em 6 de fevereiro de 2017. João Paulo e o soldado Pedro Hernan Bissoli Silva fizeram uma abordagem próximo ao hospital Jardim Cuiabá e ao dar continuidade à diligência se depararam com um segundo suspeito, que teria fugido e resistido à prisão.

 

"Todavia, em suas declarações durante o Termo de Qualificação, Vida Pregressa e Interrogatório, R. R. S. F. alegou ter sofrido agressão e choque elétrico por parte dos policiais militares na hora em que foi abordado", afirma o documento.

 

Também ao abordar um motorista embriagado na rodovia Palmiro Paes de Barros, sentido Parque Cuiabá, em 1 de janeiro deste ano, o policial teria se excedido ao fazer colocar as algemas e forçado o braço do homem até quebrar.

 

O PM também foi denunciado por lesão corporal e abuso de autoridade contra S. A. D. A. O homem foi abordado quando estava em uma Kia Sportage em 25 de março de 2018 no posto Podium, na mesma rodovia.

 

A equipe disse que o homem teria "interferido na abordagem com arrogância", tendo desobedecido ordens dos policiais durante a revista e cometido desacato. Os PM afirmam que fizeram disparo com munição não letal para cessar a ação do homem. S. A. D. A. afirmou à corporação que levou socos e chutes dos policiais e que foi alvejado com um tiro de arma de fogo na perna direita.

 

Apesar das diversas denúncias e dos procedimentos instaurados em relação ao tenente, ele segue trabalhando normalmente na Força Tática. A reportagem pediu explicações à Polícia Militar, mas não houve resposta até a publicação desta matéria.

 

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Edição 192 Agosto de 2019

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