Quase 100 anos atrás, os Estados Unidos promulgaram uma lei tarifária que desencadeou uma guerra comercial global e prolongou e aprofundou a Grande Depressão. Agora, o presidente Donald Trump aposta que o mundo mudou o suficiente para que a história não se repita.
Ele está prestes a impor as chamadas tarifas recíprocas e outras taxas no que ele chamou de "Dia da Libertação" — uma medida que deve abranger um espectro mais amplo do comércio do que as infames tarifas Smoot-Hawley de 1930, que há muito tempo servem como um alerta contra o protecionismo.
Isso faz parte do projeto mais amplo de Trump para desmantelar o sistema comercial global que os EUA ajudaram a construir a partir dos escombros daquela era, com base em sua crença de que os americanos foram prejudicados.
— O mundo tem explorado os Estados Unidos nos últimos 40 anos ou mais. E tudo o que estamos fazendo é ser justos— disse Trump em uma entrevista no fim de semana à NBC News.
Detalhes importantes — o nível das tarifas, sua duração, possíveis isenções para países ou setores — ainda estavam sendo debatidos dentro da Casa Branca nos últimos dias. Tudo depende das inclinações de um Trump notoriamente imprevisível, que pretende usar uma coletiva de imprensa no Jardim das Rosas nesta quarta-feira para anunciar as novas tarifas.
Os mercados financeiros já estão abalados, e autoridades em capitais ao redor do mundo temem que as políticas possam provocar uma recessão nos EUA e uma desaceleração global.
Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, alertou em particular os líderes da União Europeia, em uma recente reunião em Bruxelas, para que se preparassem para um cenário pior, no qual um governo hostil dos EUA arrastaria o mundo para um conflito econômico destrutivo, segundo pessoas familiarizadas com as discussões a portas fechadas.
No Canadá, que mantém um acordo comercial com os EUA desde o fim da década de 1980, os formuladores de políticas estão trabalhando para reorientar uma economia fortemente dependente de recursos naturais, que envia três quartos de suas exportações para seu vizinho imediato ao sul.
— O antigo relacionamento que tínhamos com os Estados Unidos, baseado na crescente integração de nossas economias e na estreita cooperação em segurança e defesa, acabou — declarou o primeiro-ministro Mark Carney na semana passada.
A agenda de Trump também dividiu o setor corporativo dos EUA. A Câmara de Comércio dos Estados Unidos alertou que as pequenas empresas serão especialmente prejudicadas. Até mesmo a Tesla I— cujo CEO, Elon Musk, apoia publicamente o estilo de Trump, comparado a um touro em uma loja de porcelana — pediu cautela.
No entanto, siderúrgicas e algumas marcas icônicas de consumo comemoraram a perspectiva de tarifas mais altas nos EUA, alegando uma concorrência desleal com a entrada excessiva de importações.
Ao erguer uma barreira tarifária ao redor da maior economia do mundo, Trump está cumprindo uma promessa de campanha e tentando gerar receitas para compensar os cortes de impostos que pretende aprovar no Congresso este ano. Independentemente do resultado, essa medida deixará sua marca na história econômica.
— Isso será muito maior do que Smoot-Hawley — afirma Douglas Irwin, historiador econômico da Dartmouth College, apontando tanto para o aumento esperado nas tarifas quanto para o volume de comércio afetado, que deve superar o que aconteceu em 1930. — As importações representam uma fatia muito maior do PIB agora do que no início dos anos 1930, de longe.
Atualmente, as importações de bens e serviços correspondem a 14% do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA — cerca de três vezes a participação que tinham em 1930.
Uma análise da Bloomberg Economics concluiu que uma abordagem mais radical poderia elevar em até 28 pontos percentuais a taxa média de tarifas dos EUA — resultando em uma queda de 4% no PIB americano e aumentando os preços em cerca de 2,5% ao longo de um período de dois a três anos.
Isso equivaleria a reduzir mais de US$ 1 trilhão da produção dos EUA, aproximadamente o equivalente ao PIB da Pensilvânia. Para comparação, esse impacto seria quase tão grave quanto o da crise financeira global, que deixou a economia americana cerca de 6% menor após três anos do que sua trajetória pré-crise.
As preocupações expressas por Trump sobre o imposto sobre valor agregado na Europa e as barreiras não tarifárias na China indicam que esses mercados podem enfrentar um grande choque tarifário e possivelmente perder grande parte de suas exportações para os EUA, segundo a Bloomberg Economics.
No entanto, como apenas uma parcela limitada do PIB desses países está exposta, o impacto econômico provavelmente seria administrável. Já o Canadá e os países do Sudeste Asiático provavelmente sentiriam uma interrupção maior.
A previsão da Bloomberg Economics pressupõe que outros países retaliarão com tarifas sobre as importações americanas. No entanto, ela não leva em conta os custos econômicos indiretos dessas políticas, como a incerteza sobre o futuro, que pode levar empresas a adiarem planos de investimento e consumidores a postergarem compras.
O governo Trump tem rejeitado os alertas de que as tarifas poderiam afundar a economia e celebra quase US$ 2 trilhões em anúncios de investimentos, que insiste serem prova de que as tarifas já estão trazendo a manufatura de volta para os EUA. No entanto, ainda não está claro quantos desses investimentos de longo prazo realmente se concretizarão ou quantos novos empregos serão gerados.
Atração de investimentos
— As tarifas tornarão os Estados Unidos mais competitivos. Elas incentivarão investimentos no país — disse Stephen Miran, presidente do Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca, em uma entrevista à Bloomberg News em 19 de março, na qual também destacou a receita que as tarifas vão gerar.
Outros altos funcionários afirmam que as novas tarifas trarão mais de US$ 700 bilhões para os cofres federais.
Além das tarifas de 25% sobre automóveis que entraram em vigor na semana passada, Trump já impôs tarifas de 25% sobre muitas importações do Canadá e do México, alegando que a medida tem o objetivo de pressionar esses países a reprimirem a migração e o tráfico de fentanil para os EUA.
A China também foi atingida com tarifas de 20% por, segundo Trump, não fazer o suficiente para impedir a exportação de precursores de fentanil para o México, Canadá e os EUA.
Trump também aplicou tarifas globais sobre importações de aço e alumínio e prometeu novas tarifas sobre cobre e produtos farmacêuticos.
No entanto, nenhuma dessas tarifas deve se comparar, em termos de valor das importações afetadas, às chamadas tarifas recíprocas. As novas taxas têm o objetivo de sintetizar em um único número — a taxa tarifária — todas as barreiras comerciais que as exportações dos EUA enfrentam em outros mercados, incluindo impostos, regulamentações ambientais e normas de segurança.
Um dos principais alvos da ira de Trump tem sido o uso do imposto sobre valor agregado (IVA) por países europeus e outros, que permitem que seus exportadores recebam reembolsos desse imposto. Os planos evoluíram nas últimas semanas, desde que Trump se afastou de sua ideia de campanha de aplicar uma tarifa universal, que teria imposto uma taxa fixa mais simples de 10% a 20% sobre todas as importações dos EUA.
Não houve discordância pública entre os principais funcionários do governo Trump. No entanto, há sinais de disputas internas. Um assessor se referiu publicamente a "negociações" dentro da administração. E, no fim de semana, Kevin Hassett, chefe do Conselho Econômico Nacional de Trump, deixou claro que os detalhes ainda não foram decididos.
— O presidente tem diante de si uma enorme quantidade de análises e, tenho certeza, tomará a decisão certa — disse Hassett à Fox News no domingo.
Os americanos parecem céticos de que as tarifas fortalecerão a economia e estão preocupados com o aumento dos preços: o sentimento do consumidor em março caiu para o nível mais baixo em mais de dois anos, enquanto as expectativas de inflação de longo prazo subiram para o maior patamar em 32 anos.
Autoridades do governo Trump têm tentado acalmar as preocupações dos eleitores, argumentando que a promessa de uma grande transformação econômica valerá o sacrifício.
Trump afirmou em uma entrevista no fim de semana que “não poderia se importar menos” se as montadoras estrangeiras aumentassem os preços em resposta às tarifas, porque “as pessoas vão começar a comprar carros americanos.”
‘Esqueçam’ o GATT
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os EUA lideraram o esforço para reduzir tarifas e adotaram o conceito de “nação mais favorecida”, que, desde a assinatura do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) em 1947, aplicou taxas cuidadosamente negociadas a milhares de produtos altamente específicos. O sistema oferecia a menor tarifa possível a todos os membros do GATT e, depois, de sua sucessora, a Organização Mundial do Comércio (OMC).
— O que isso faz é dizer: ‘Esqueçam o GATT. Esqueçam a OMC. Vamos simplesmente estabelecer nosso próprio conjunto de regras bilateralmente com cada país’ — afirma Michael Froman, presidente do Conselho de Relações Exteriores e principal negociador comercial dos EUA durante o governo Obama.
O objetivo declarado do governo Trump é reduzir os desequilíbrios globais, que agora são amplamente reconhecidos como uma fonte de tensão. No melhor dos cenários, essa abordagem poderia levar a uma série de acordos dos EUA que diminuiriam as barreiras comerciais ao redor do mundo, disse Michael Froman.
Há sinais de que a União Europeia e outros países já começaram a elaborar concessões na esperança de que Trump pelo menos suavize suas tarifas.
No entanto, "o maior risco, na minha opinião, é que isso leve a uma escalada nas barreiras comerciais, afetando o crescimento, além da inflação, produtividade e competitividade", afirmou Froman:
—E que, em vez dos benefícios de uma economia global em crescimento, vejamos uma redução do bolo econômico, inclusive para os Estados Unidos.
Além disso, as tarifas de Trump parecem não ter limites, diz Mary Lovely, pesquisadora sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional.
— Se você acredita que os EUA precisam de proteção para todos os bens manufaturados, então, em pouco tempo, a única coisa que você não estará protegendo são os produtos que não produzimos. Mas esses caras parecem querer produzir tudo — ela diz.
Atrasos por incerteza
As empresas estão correndo para se adaptar e tentando prever o que está por vir, o que para muitas significa apertar o freio até mesmo em pequenas decisões. Na DataDocks, empresa que auxilia companhias como PepsiCo e Stitch Fix a coordenar o tráfego em fábricas e armazéns, as reservas para abril caíram 35% em relação ao ano anterior.
Mais preocupante para Nick Rakovsky, fundador da DataDocks, é que empresas que normalmente planejariam entregas para os meses de verão não estão reservando nada além da primeira quinzena de abril. Isso, segundo ele, é um "comportamento consistente com a incerteza que vimos no passado" durante o caos da cadeia de suprimentos na pandemia de Covid-19.
Em 2019, durante a primeira guerra comercial de Trump, o Federal Reserve concluiu que o impacto da incerteza na desaceleração dos investimentos e contratações foi maior do que o efeito direto das tarifas. Desta vez, a incerteza disparou para níveis superiores aos daquela época e já está aparecendo nas previsões oficiais.
Em março, o Fed reduziu sua previsão de crescimento anual na maior queda desde 2022, revisando a projeção deste ano de 2,1% para 1,7%. Isso aconteceu antes das novas tarifas anunciadas nesta semana e logo após a OCDE alertar que as políticas comerciais de Trump desacelerariam o crescimento global e aumentariam os preços.
— Essa é a mudança mais dramática na confiança que eu posso lembrar, exceto quando a Covid atingiu — , disse Neel Kashkari, presidente do Fed de Minneapolis desde 2016, na semana passada. — É concebível que o impacto na confiança possa ser maior do que o efeito das próprias tarifas.
Outros compararam os riscos potenciais ao choque do petróleo dos anos 1970, que levou à estagflação, ou à incerteza gerada pela crise financeira de 2008. Sayuri Shirai, ex-integrante do conselho de política do Banco do Japão, teme que, ao contrário das recentes desacelerações, a inflação persistente — que provavelmente será ainda mais impulsionada pelas tarifas — limite a capacidade dos bancos centrais de reagir desta vez.
Tudo isso deixou Wall Street inquieta, com o S&P 500 entrando em território de correção em março, à medida que economistas do Goldman Sachs Group, JPMorgan Chase e outras grandes casas de investimento reduziram suas previsões de crescimento para os EUA.
As preocupações continuaram a afetar os mercados financeiros globais na segunda-feira, com as ações americanas registrando seu pior trimestre em relação ao resto do mundo desde 2009 e o índice japonês Nikkei 225 encerrando o dia em queda de cerca de 4%.
—É difícil de acreditar, mas estamos de volta ao alerta de recessão — escreveu Mark Zandi, economista-chefe da Moody’s Analytics, em uma nota recente.
Até janeiro, esperava-se que os EUA superassem o restante do mundo graças ao forte consumo e a um mercado de trabalho sólido, com esperanças até mesmo na agenda pró-negócios de Trump. Mas a ofensiva tarifária mudou completamente esse cenário.
Preocupações dos economistas
—Muitos países tentaram crescer por trás de grandes barreiras tarifárias, e simplesmente não funciona — diz Simon Johnson, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) e vencedor do Prêmio Nobel de Economia. — Protecionismo não é uma boa estratégia, e já vimos isso muitas vezes na história mundial.
Enquanto os CEOs americanos inicialmente receberam bem as promessas de Trump sobre cortes de impostos e desregulamentação, agora eles alertam cada vez mais sobre os perigos do protecionismo e o impacto negativo na confiança do consumidor. Ainda assim, algumas empresas apoiam o ataque de Trump contra as barreiras comerciais estrangeiras.
Em uma carta enviada em 11 de março às autoridades comerciais dos EUA, a JM Smucker Co. reclamou de um desequilíbrio: as tarifas americanas sobre geleias importadas são inferiores a 2%, enquanto as tarifas efetivas da União Europeia chegam a 37%.
A empresa apontou que essa diferença levou os fabricantes europeus a exportarem quase US$ 240 milhões em geleias, marmeladas e outras conservas para os EUA em 2024, enquanto os EUA enviaram apenas US$ 295.614 em produtos similares para a Europa. A carta afirmou que as tarifas da UE sobre esses produtos "prejudicam os agricultores, produtores e trabalhadores americanos".
Por outro lado, executivos da Tesla escreveram recentemente às autoridades comerciais americanas alertando que as novas tarifas poderiam prejudicar não apenas a montadora, mas também a competitividade dos EUA, ao aumentar os custos de fabricação no país.
Na semana passada, Trump afirmou que não discutiu tarifas com Musk, dizendo que isso representaria um possível conflito de interesses.
A Tesla tem enfrentado reações negativas dos consumidores, e há sinais de que boicotes contra produtos americanos estão se espalhando. Após a implementação das tarifas Smoot-Hawley, parceiros comerciais europeus e de outras regiões impuseram suas próprias tarifas sobre exportações americanas, incluindo automóveis da Ford e outros veículos fabricados nos EUA, conforme documentado pelo economista Kris James Mitchener e seus coautores em um artigo de 2021.
Dessa vez, diz Douglas Irwin, as empresas americanas podem enfrentar um cenário semelhante. No Canadá, algumas lojas já removeram uísques e outros produtos americanos das prateleiras.
Irwin observa que as queixas comerciais de Trump remontam aos primeiros dias dos EUA, quando Thomas Jefferson e Alexander Hamilton protestavam contra importações e defendiam tarifas.
— Sempre tivemos algo no DNA dos EUA sobre práticas comerciais injustas — ele diz.
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